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A seguir está a transcrição
da matéria publicada em 31 de março de 2006
no Caderno de Economia do jornal "A Razão".
Qual
o futuro do agronegócio?
Agricultores e pecuaristas reclamam da falta
de políticas de incentivo e da crise do setor
Os recentes protestos de produtores rurais em Júlio
de Castilhos, que reuniram agropecuaristas e comerciantes,
revelam uma realidade cruel do meio rural: o agronegócio
está em crise. Por isso, municípios essencialmente
agrários, como Júlio de Castilhos, são
duramente afetados.
A crise, que atinge agricultores e pecuaristas passa pelo
comércio, respinga diretamente na pequena indústria,
e estoura na outra ponta. Ou seja, no consumidor final dos
produtos.
Mas qual a origem da crise? As respostas são muitas,
mas podem ser resumidas em uma afirmação que
já se tornou chavão de tanto ser repetida: a
falta de uma política agrícola. "O governo
precisa criar mecanismos que compensem a perda de renda no
segmento", diz o produtor rural Ricardo Lang, 42 anos.
Proprietário de três mil hectares em São
Sepé, Lang planta uma área de 1,5 mil hectares
de soja a outra de 550 hectares de arroz.
Mesmo sendo uma empresa familiar, constituída através
de condomínio, a propriedade da família Lang
é considerada grande para os padrões regionais.
Essa condição não impede que ele seja
atingido, já que o agronegócio como um todo
é prejudicado pela política econômica.
"Quando se tem uma política cambial como a praticada
atualmente pelo Governo, há setores beneficiados a
prejudicados, como é o nosso. Temos que ter políticas
de ajustes, compensatórias", defende Lang. Definida
como política macroeconômica, a tal política
compensatória passaria por mudanças na economia
envolvendo comércio, indústria e agricultores.
Um exemplo é a fixação do preço
mínimo para os produtos agrícolas. Esta, aliás,
é a principal queixa do setor agrícola, um dos
braços do agronegócio.
O preço mínimo estipulado pelo Governo Federal,
através do Ministério da Agricultura, não
cobre sequer os custos de produção (o valor
que o produtor gasta para plantar). Desta forma, o agricultor
acaba pagando para trabalhar, se endivida e, em grande parte
dos casos, acaba perdendo ou abandonando a terra.
Para se ter uma idéia, na safra 2004-2005, o Ministério
da Agricultura fixou o preço mínimo da saca
do arroz em R$ 20,00, enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento
(Conab), um órgão do próprio governo,
fixou o valor em R$ 30,00. Na mesma safra, o preço
mínimo definido pelo Instituto Riograndense do Arroz
(IRGA) foi de RS 27,00.
O preço mínimo é o que o agricultor ganha
para vender o produto à indústria. A discrepância
chegou a tal ponto que as impurezas do arroz eram revendidas
para indústria de ração para animais
a um preço muito superior ao do produto limpo, pronto
para o consumo humano.
Ruralistas criticam
a política econômica do governo
Na queda-de-braço entre produtores rurais e o governo,
sobra para os políticos e para os bancos. "O governo
está nos tirando renda para remunerar o capital especulativo",
reclama o produtor Ricardo Lang. "Passamos de grandes
produtores a grandes devedores. Está havendo uma transferência
de renda do campo para os bancos. Temos que brigar para que
tenhamos os mesmos custos de produção. Isso
é uma questão política", reforça
o presidente da Associação Rural de Santa Maria,
Rodrigo Menna Barreto.
O presidente do Sindicato Rural de Santa Maria, Erony Paniz,
é ainda mais contundente. "Os bancos tem bilhões
de rendimentos e o governo tem dinheiro para remunerar o capital
especulativo. Infelizmente, no Brasil existe muito mais jaguara
que cachorro", dispara Paniz.
Acostumado a ver produtores rurais desesperados, o advogado
Eduardo Kümmel, da Kümmel & Kümmel Advogados
Associados, recomenda a advocacia preventiva. Ou seja, o produtor
deve se prevenir, melhorando não só a gestão
do seu negócio, como se antecipando aos problemas,
inclusive recorrendo à Justiça para renegociar
débitos. Ele concorda com a tese de que o problema
do agronegócio está na política econômica.
"A política cambial faz com que o preço
dos produtos agrícolas baixem. É preciso terminar
com esse dólar-fantasia", afirma.
Kümmel montou uma cartilha de advocacia preventiva para
o agronegócio, na qual sugere medidas como blindagem
patrimonial. É uma forma de evitar que o produtor rural
perca ainda mais.
Altos impostos
O excesso e valor dos impostos, taxas e demais tributos pagos
pelos produtores também contribuem para a crise na
agropecuária brasileira. Por isso, uma das principais
bandeiras levantadas pelos ruralistas é a redução
da carga tributária.
"A alta carga tributária que pagamos é
um grande problema. O governo dá bolsa-família
e outras compensações de renda e para nós
não há compensação alguma",
reclama Ricardo Lang. Rever os tributos de toda a cadeia produtiva
está para o agronegócio como o tempo bom pare
o plantio.
Uma medida paliativa, que resolveria parte dos problemas momentaneamente,
seria liberar os produtores para importar insumos agrícolas.
Hoje, eles não podem comprar máquinas, fertilizantes
e sementes de outros países. Já a longo prazo
a solução seria a equalização
de custos, reduzindo as desigualdades entre agropecuária,
indústria e comércio.
A questão dos custos, por exemplo, favorece a importação
de grãos do Uruguai em detrimento da produção
brasileira. É que lá o valor dos insumos é
bem menor que no Brasil. Se os agropecuaristas brasileiros
pudessem comprar máquinas, sementes e fertilizantes
dos uruguaios os custos seriam menores e, conseqüentemente,
os ruralistas teriam menos perdas.
Nas críticas feitas ao Governo Federal, os ruralistas
não poupam nem mesmo o ministro da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento, Roberto Rodrigues. Produtor rural, Rodrigues
tem a simpatia dos seus colegas de classe, mas ninguém
acredita que ele consiga melhorar a vida de quem depende do
campo. "O ministro é um coitado", define,
o presidente do Sindicato Rural, Erony Paniz. O presidente
da Associação Rural, Rodrigo Menna Barreto,
engrossa o coro: "ele é bem intencionado, mas
não vai bater de frente com a política do governo".
Em uma reunião ocorrida no escritório da Kümmel
& Kümmel Advogados Associados, Paniz, Lang, Menna
Barreto e Eduardo Kümmel discutiram formas de pressão.
A Razão acompanhou o encontro e testemunhou
a indignação dos ruralistas. Eles pretendem
fazer uma manifestação em Santa Maria para chamar
a atenção dos governistas, mas ainda não
definiram uma data. Para complicar ainda mais a vida dos agropecuaristas,
o tempo não está ajudando. E mais uma vez, pelo
que eles próprios prevêm, a conta também
vai sobrar para o consumidor.
Uma cartilha para auxiliar produtores
Advocacia preventiva é uma medida que pode ajudar os
agropecuaristas endividados.
O advogado Eduardo Kümmel presta consultoria para vários
produtores rurais. Para ele, é imprescindível
que os ruralistas se tornem empresários e empreendedores,
dominando técnicas da administração.
Por isso, gestão é uma palavra recorrente no
seu vocabulário.
"Têm três coisas que definem um bom empresário
rural. Primeiro, ele deve saber o produto que dá melhor
produtividade e retorno. Em segundo lugar, deve estar sempre
atualizado sobre o aumento dos insumos. E, terceiro, deve
saber a hora de vender o que produz", resume Kümmel.
Crítico contundente da atual política econômica,
que, segundo ele, privilegia enormemente os bancos em detrimento
do setor primário e do agronegócio, Eduardo
Kümmel defende a advocacia preventiva como forma de evitar
ou pelo menos diminuir prejuízos e riscos.
"Já obtivemos inúmeras decisões
favoráveis em ações contra a União
Federal (PESA e Securitização) e contra instituições
financeiras que foram obrigadas a restituir valores",
exemplifica Kümmel. Nestes casos, os bancos também
foram impedidos de colocar os nomes dos devedores nos órgãos
restritivos de crédito.
Um caso de advocacia preventiva que ficou bem conhecido é
o do produtor Ricardo Lang. No início deste ano, o
Instituto Nacional de Colonização a Reforma
Agrária (INCRA) recebeu uma determinação
para vistoriar as terras do ruralista. Caso ele não
comprovasse a produtividade, conforme as critérios
do INCRA, a propriedade ficaria passível de desapropriação.
Lang procurou a advocacia preventiva e assim facilitou os
critérios de vistoria e impediu que eles prejudicassem
seus negócios.
As sugestões do especialista
Gestão jurídica do agronegócio:
Priorizar sempre a advocacia preventiva, amenizando custos
e riscos, discutindo contratos, impostos, juros, arrendamento.
Planejamento sucessório sem custo.
Proteção do patrimônio:
Orientação jurídica - análise
de contratos, legislações específicas,
Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), entre outros.
Contratos bancários - estudo, análise e revisão
de contratos bancários e outros, incluindo PESA, securitização,
contas-correntes, CPRs e demais títulos. Consignação
da CPR do custeio em produto e não em valor face o
preço atual do produto. Buscar todos os créditos
possíveis pagos a mais, sejam bancários ou tributários,
Funrural e demanda contratada de energia elétrica.
Dicionário do Agronegócio
Agronegócio: Segmentação da economia
que engloba negócios rurais, com base na agricultura
e na pecuária. Inclui a agroindústria.
Carga tributária: Impostos, taxas, tributos
e encargos pagos pelos empresários, tanto rurais como
de outros setores.
Comercialização: É o dinheiro
emprestado para que o agricultor possa adiar a venda do produto
e vendê-lo em época mais propícia e com
melhores preços. Os prazos geralmente são de
180 dias e os juros, de 8,75% ao ano.
Custeio: É o dinheiro que os bancos emprestam
aos agricultores, por ano, para os gastos no preparo da terra,
plantio, manutenção da lavoura e colheita. O
vencimento do empréstimo ocorre sempre após
a colheita, com pagamento em cinco prestações
mensais. Os juros oficiais são de 8,75% para a agricultura
empresarial e do 4% para a agricultura familiar.
Custo de produção:
É o que o produtor rural investe para plantar ou criar
animais.
Equalização: Equilibrar os custos da
cadeia produtiva.
Insumos: Tudo o que é utilizado para produzir.
Exemplo: máquinas, equipamentos, sementes, fertilizantes
e combustível.
Investimento: É o dinheiro que o produtor toma
emprestado para adquirir novos bens, novas máquinas,
equipamentos, tecnologia e animais. O empréstimo deve
ser pago em até cinco anos na agricultura empresarial
e em até oito anos na agricultura familiar. Os juros
oficiais variam de 8,75% a 13,95% para a agricultura empresarial,
e estão fixados em 3% para a agricultura familiar.
PESA: Constitui, com a securitização,
dívidas antigas dos agricultores já renegociadas.
O Programa Especial de Securitização Agrícola
pode ser pago em até 20 anos com juros de 5% anuais.
Política macroeconômica: Conjunto de políticas
adotadas pelo governo que envolvem todos os segmentos da economia
com visões de curto, médio e longo prazos. Expressa
a linha de pensamento econômico de um governo.
Preço Mínimo: Valor estabelecido pelo
Governo Federal para os produtos agrícolas, a cada
safra. É um dos principais alvos das críticas
dos produtores, já que, com o estabelecido pelo governo,
não dá sequer para eles cobrirem as despesas
de plantio. Um exemplo disso é o preço mínimo
do arroz na safra 2004-2005: enquanto a Conab, órgão
do próprio governo, fixou a saca em R$ 30,00 e o Irga
em R$ 27,00 o Ministério da Agricultura estipulou R$
20,00 para a saca.
Renda: É o que o produtor rural ganha com a
venda do que produz. Aí devem estar incluídos
os custos de produção e o lucro. Em outras palavras,
é a remuneração do produtor.
Securitização: Dívida antiga dos
agricultores já renegociada e que pode ser paga até
2025, com juros de 3% ao ano.
(31/03/06)
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